MOTIVOS PARA LUTAR CONTRA O ENSINO REMOTO

Por sindoif

Saiba porque o ensino remoto emergencial, que se esconde sobre o falso manto da inclusão educacional “possível” neste período de pandemia, em verdade será a porta de entrada para a precarização da educação e para a privatização nas instituições públicas federais.

O processo de eadização dos cursos presenciais passou a andar de vento em popa no Brasil do início do século XXI, tanto pelo respaldo das legislações da educação, que permitem a oferta de um percentual de disciplinas online em cursos presenciais (20% antes até a recente ampliação para até 40% nos cursos superiores), quanto pela novíssima onda do ensino remoto emergencial (ERE), por força do isolamento social provocado pela pandemia da covid-19. 

Seguem alguns motivos para reflexão sobre o processo de elitização e de precarização do ensino presencial e sua interface com os interesses que visam privatizar o ensino público por dentro das instituições de educação.

Elitização Educacional

O Brasil é marcado por desigualdades socioeconômicas, de classe, raça e gênero. Com a crise econômica e o golpe de 2016 as desigualdades cresceram e na pandemia deram um salto exponencial. Neste cenário, as aulas remotas impedirão o acesso e permanência de setores populares no ensino público ofertado pelas instituições federais, o que levará ao aumento da evasão estudantil, em especial dos/as trabalhadores/as, pretos/as, indígenas e moradores/as da periferia. O saldo final será a elitização educacional. É tempo de defendermos, acima de tudo, o isolamento social, a vida e as medidas igualitárias para que ninguém fique pra trás!

Precarização das condições de estudo

Com as instituições de ensino fechadas, os/as estudantes perderam acesso às bibliotecas, salas de estudo, laboratórios de informática, restaurantes acadêmicos e outros equipamentos indispensáveis para as condições mínimas de ensino, pesquisa e extensão. Na sua grande maioria, estão hoje compartilhando moradias com espaço restrito e sem condições adequadas para o estudo. Quando existem equipamentos e acesso à internet, estão sobrecarregados pelo uso compartilhado pela família. Destaca-se, ainda, a condição das mulheres, oprimidas por violência patriarcal, jornadas duplas ou triplas de trabalho e com tarefas domésticas, de educação e cuidado de crianças, de adolescentes e de idosos/as. Isto sem contar com a deterioração das condições de saúde física e mental, que não podem ser naturalizadas quando ultrapassamos 60 mil mortos e mais de 1 milhão de casos de covid-19 no país. 

Reducionismo pedagógico

Os debates sobre adoção de aulas remotas são ditados por uma visão tecnicista e reducionista sobre a educação pública de qualidade – que é baseada no tripé ensino pesquisa e extensão. A proposta do ERE visa reduzir o conceito de educação apenas para o ensino que, por sua vez, é reduzido às aulas automatizadas e acríticas. E para executá-las, bastaria a distribuição de equipamentos e planos de internet para os/as estudantes, sem passar por planejamento. O resultado será uma perda significativa da qualidade no ensino público ofertado nas instituições federais.

Ataques à autonomia docente

Desde a criação do famigerado “Escola Sem Partido”, aulas gravadas sem conhecimentos dos/as professores/as tem se tornado um grave problema. Com aulas remotas, este problema agudo se tornará crônico, atingindo fortemente a autonomia docente. Com a possibilidade de aulas remotas via plataformas e aplicativos, o risco da exposição docente será ampliado. O uso de técnicas de edição sofisticadas de som e imagens poderá levar a perseguição à patamares extremamente perigosos. 

Transferência de custos para docentes e técnicos/as

As aulas remotas e o próprio trabalho remoto têm como requisito uma estrutura tecnológica que é inerente às atividades. Gastos com compra de equipamentos, contratação dos melhores planos de internet banda larga, além do aumento do consumo de energia, de telefonia móvel, de plano de dados para internet, serão transferidos às trabalhadoras e aos trabalhadores em educação, sem qualquer recomposição salarial e, inclusive, com redução de remuneração via cortes no auxílio transporte, nos adicionais ocupacionais e no adicional noturno, entre outros.

Apropriação de dados públicos e ataques cibernéticos

Para viabilizar aulas remotas, as instituições públicas de ensino poderão contratar plataformas online, equipamentos de informática e pacotes de dados de grande conglomerados, permitindo e propiciando aos programas contratados o acesso aos dados institucionais, bem como dos/as usuários/as. Não raro, as informações pessoais ou institucionais poderão ser comercializadas sem prévio consentimento. Junto a isto, vivenciaremos crescente onda de ataques cibernéticos em atividades remotas ao vivo, como aulas, reuniões, assembleias e eventos em geral, pondo em risco não só os dados, mas a segurança, a privacidade e a liberdade dos/as usuários/as.

Solução que não será temporária nem emergencial

O investimento em tecnologias da informação e comunicação (TIC) é recorrente em empresas privadas da educação, tanto para reduzir custos, diminuir a sindicalização docente e a combatividade estudantil, quanto para permitir que o conteúdo seja reproduzido massivamente para diferentes turmas, padronizando saberes e práticas pedagógicas e desvinculando o ensino da pesquisa e da extensão. A estratégia de Bolsonaro e de muitas reitorias é de reproduzir e adotar processos remotos com objetivo de privatizar as instituições federais por dentro. E no futuro, altos investimentos em tecnologias servirão para pavimentar os negócios dos grande conglomerados TIC. O que se vende como uma solução temporária e emergencial, será comprado pelo mercado e pelo governo como uma reestruturação definitiva.

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